artigo sobre espartanos

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artigo sobre espartanos

Mensagem  Convidad em Sab Mar 27, 2010 2:41 pm

http://espartano.wordpress.com/2007/02/18/sangue-honra-e-gloria-a-disciplina-espartana/

É verdade o que esse artigo fala?
Como hoje em dia vemos auto-flagelação e dominio da dor?

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Re: artigo sobre espartanos

Mensagem  Thiago Oliveira em Sab Mar 27, 2010 3:26 pm

Pri,

honestamente sei muito pouco sobre Esparta porque a minha maior fonte de referência cultual é Athenas e a Beócia, mas eu particularmente vejo que dentro do contexto de honra e valorização ética, essa história da autoflagelaçaõ é totalmente incabível. Não é se penalizando que você se melhora, mas sim corrigindo aquilo que lhe está em falta ou defeituso, não só no campo moral, mas também no campo prático, o mundo das ações. Quanto ao domínio da dor, ao meu ver em alguns aspectos é algo bem pertinente, e elemento parte da formação do soldado e/ou elemento moral, porque não é só saber controlar os seus medos, mas ao meu ver é fundalemente exercitar o metrón.
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Re: artigo sobre espartanos

Mensagem  filhotedelua em Seg Mar 29, 2010 1:12 am

uma coisa importante é pensar que muito do que se diz sobre esparta foi escrito por seus inimigos, então contem certa dose de exagero, com o objetivo deles parecerem bárbaros/ incivilizados.
Sei que os espartanos se flagelavam como sacrifício à Artemis dentro de um festival bastante específico. E ai isso era feito dentro de todo um contexto de oferecer sua dor e sua resistência para a Senhora. O chicoteamento dentro de um contexto ritual era uma forma de purificação (como na Lupercália dos romanos), e nesse festival, era uma forma de oferecer sangue à Artemis, talvez como memória de sacrifícios humanos num passado remoto.


e deixando claro - a partir daqui, vou falar por mim, experiência pessoal, que acho que faz sentido nesse caso.

Em dezembro fez um ano que sofri um machucado considerável durante um ritual, enquanto honrava aos Kuretes. Vejo a cicatriz que ganhei nas costas como uma honraria. Ela tem entre 8 e 10 cm de comprimento, e levou um tempo enorme para cicatrizar pq não foi um ferimento por corte, mas por perfuração (eu cai sobre um copo de vidro muito fino que quando espatifou virou uma lâmina). Além da óbvia relação que fiz com um sacrifício de sangue, o que me deixou depois me sentindo orgulhosa de mim foi que eu lavei com álcool a ferida e pedi um band aid ( Laughing ), e considerei que ótimo, vamos continuar. Não deixei que me levassem até um pronto socorro, estanquei o sangue e continuamos o rito e cuidei eu mesma da ferida depois (o povo queria me matar porque eu deveria ter tomado uns pontos).

Agora, vou tatuar ao lado da cicatriz a palavra "Arete", virtude. Para que eu sempre me lembre do despreendimento que tive naquele momento, em valorizar mais o culto que estava prestando do que a dor ou o ferimento em mim. A realidade é que, naquele momento, não cogitei fazer de outra forma. Não foi uma escolha consciente, mas uma prática íntima e já tornada natural de buscar o domínio sobre a dor.


No Japão existe uma prática camada shugendô, uma prática mística sincrética do shintô e do budismo. Entre as práticas do shugendô estavam o ascetismo, o subir as montanhas e vivenciar uma série de dificuldades naturais, reclusão, jejum, práticas de resistência. Isso para um guerreiro tem um papel importante, e não está relacionado ao sentir dor, mas ao resistir às dificuldades -a dor é uma dificuldade entre muitas.


Não estamos falando de auto flagelação, de sentir dor por sentir dor, mas de ser capaz de passar pela dor, dificuldades, sem se deixar afetar. Na verdade, isso é o contrário da auto flagelação, que tem por objetivo, sentir dor, pura e simplesmente. Auto flagelação (como o cilício da opus dei) só serve para se enfraquecer física e moralmente.

Quando eu tinha doze anos de idade li uma frase que dizia o seguinte: "Não há virtude, nem vitória maior,que comandar e vencer a si próprio" eu já me via nessa época como uma "ursa" de Ártemis fazia alguns anos, embora ainda não soubesse que existiam pessoas que ainda louvassem os deuses gregos. Eu tinha o hábito de dormir no chão e tinha aprendido a usar arco e flecha, não usava blusa no frio, tomava banho gelado (uma das coisas que sinto falta dessa época é mergulhar no tanque da mina dágua da chácara do meu avô, com a água a 5 graus, e depois me aquecer correndo no meio do mato até a roupa secar no corpo). Isso me marcou profundamente. Para dominar seu corpo, não se pode ter medo da dor, do sofrimento. Isso é muito diferente de buscar o sofrimento como um fim em si mesmo - pelo contrário, é um ser capaz de ser indiferente a ele quando ele surgir.

É isso que o guerreiro busca. Ser capaz de resistir, de ser forte e capaz. Ele não quer sentir dor - ele quer ser indiferente à ela.

Acho que consigo encarar tão fortemente o prazer de estar viva e vivenciar a liberdade dionisíaca justamente por ter aprendido sobre meu corpo e meu espírito, através do controle estrito (e do descontrole), e hoje embora já não seja mais uma ursa de Ártemis, acho que isso moldou meu caráter e me deu resistência. Assim, encarei meu parto com naturalidade e sem dificuldades, se me foco não me incomodo com chuva ou frio, e quando quero/ preciso, faço jejuns que me ajudam nos trabalhos xamânicos e dionisíacos.

Afinal, as mênades subiam a montanha e dançavam descalças na neve...

Auto controle e domínio de si mesmo. Acho algo primordial.
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Re: artigo sobre espartanos

Mensagem  Alexandra em Seg Mar 29, 2010 11:01 pm

filhotedelua escreveu:e deixando claro - a partir daqui, vou falar por mim, experiência pessoal, que acho que faz sentido nesse caso.
Também vou falar por experiência, sem entrar muito em história ou doutrina.

filhotedelua escreveu:o subir as montanhas e vivenciar uma série de dificuldades naturais, reclusão, jejum, práticas de resistência.
O professor Medina fala de Apolo como um deus da razão, que precisa se distanciar dos outros para poder pensar, porque você estar no meio das pessoas não te deixa pensar claramente. Ou seja, em várias culturas há esse entendimento de se retirar (seja para as montanhas ou floresta ou mosteiro ou outro canto) para encontrar a luz do divino (e da consciência, de Apolo).

filhotedelua escreveu:Isso para um guerreiro tem um papel importante, e não está relacionado ao sentir dor, mas ao resistir às dificuldades -a dor é uma dificuldade entre muitas. Não estamos falando de auto flagelação, de sentir dor por sentir dor, mas de ser capaz de passar pela dor, dificuldades, sem se deixar afetar. Na verdade, isso é o contrário da auto flagelação, que tem por objetivo, sentir dor, pura e simplesmente. Auto flagelação (como o cilício da opus dei) só serve para se enfraquecer física e moralmente.
Sim, auto-flagelação não tem graça alguma, você está controlando a força/intensidade/etc do elemento que causa dor, e normalmente fazem isso para se auto-punir, com aquele sentido cristão de se sentir miserável e uma auto-piedade desnecessária e que não te leva pra frente. É até cômodo se julgar um pobre-coitado que merece ser punido em vez de se levantar e fazer algo para mudar as coisas, tomar as rédeas da situação.
É bem diferente de aguentar a dor que te mandam como uma espécie de teste de resistência. Não se trata, no entanto, de um deus te testando (como Javé fez com Jó), porque se os deuses nos conhecem eles não precisam testar nada. Trata-se, sim, de você mesmo se testar, de você conhecer seus limites. "Conhece-te a ti mesmo!"

filhotedelua escreveu:Eu tinha o hábito de dormir no chão e tinha aprendido a usar arco e flecha, não usava blusa no frio, tomava banho gelado (uma das coisas que sinto falta dessa época é mergulhar no tanque da mina dágua da chácara do meu avô, com a água a 5 graus, e depois me aquecer correndo no meio do mato até a roupa secar no corpo).
Se você ver, os adolescentes de hoje têm muito mais certas doenças do que os do passado, porque não eram crianças que foram pra rua brincar no chão, se sujar, pegar micróbio, vírus, criar resistência às intempéries da vida. Aí, com qualquer coisinha, já se fragiliza e vive com sinusite, gastrite, virose, gripe a-b-c, et al.

filhotedelua escreveu:É isso que o guerreiro busca. Ser capaz de resistir, de ser forte e capaz. Ele não quer sentir dor - ele quer ser indiferente à ela.
Uma das coisas que talvez você encontre em tratados religiosos/místicos/esotéricos/etc (e talvez até psicológicos e médicos) é a relação entre a dor física e a superação espiritual/mental. Quando a dor do corpo é muito grande e não se vê um alívio possível e próximo, por alguma espécie de instinto o sistema reage de forma a retirar a alma daquilo ali: a mente se refugia em algum lugar onde possa se distrair da dor latente que o corpo está experimentando. E, quando a mente faz isso, é comum ela encontrar lugares e descobrir coisas que a faz evoluir em sabedoria e em espiritualidade. A dor fez ela retirar o centro da sua atenção do corpo e se dirigir a partes pouco exploradas da psique.
Smile

filhotedelua escreveu:Afinal, as mênades subiam a montanha e dançavam descalças na neve...
Pois é, mais um exemplo de que o êxtase (o sair de si) faz a mente/alma não sentir o que o corpo padece.

filhotedelua escreveu:Auto controle e domínio de si mesmo. Acho algo primordial.
"Uma vida não-examinada não é digna de se viver"! (Platão)

Wink
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Shugendô

Mensagem  Ricardo Mário Gonçalves em Ter Mar 30, 2010 3:54 pm

filhotedelua escreveu:No Japão existe uma prática chamada shugendô, uma prática mística sincrética do shintô e do budismo. Entre as práticas do shugendô estavam o ascetismo, o subir as montanhas e vivenciar uma série de dificuldades naturais, reclusão, jejum, práticas de resistência. Isso para um guerreiro tem um papel importante, e não está relacionado ao sentir dor, mas ao resistir às dificuldades -a dor é uma dificuldade entre muitas.

Talvez interesse para vocês saber que fui iniciado no Shugendô no Japão, nos idos de 1973. Filz uma escalada iniciática no Monte Ômine, no Japão Central, em companhia de um grupo de "yamabushi" (ascetas do "shugendô". E´uma montanha sagrada, cujo acesso é interdito às mulheres. Antes de começar a esclada, tivemos de tomar um banho purificatório numa cachoeira, no sopé da montanha, completamente nús. Fazia um frio tremendo, mas o banho fez nosso corpo esquentar e chegamos a suar. O percurso da escalada compreende vários lances arriscados em que um hierofante nos guiava passo a passo, indicando detalhadamente onde deveríamos colocar cada pé e cada mão. Um passo em falso e cairíamos no abismo. Em um deteminado momento fomos pendurados pelos pés à beira de um abismo aterrador. É a chamada "Prova da Eedra do Inferno". No alto do monte há um santuário onde scelebramos o antigo rito védico do Sacrifício do fogo. Em suma, essa iniciação consiste numa "viagem através dos elementos - terra, água, ar e fogo - como a narrada pelo iniciao Apuleio em seu romance "O Asno de Ouro".

Ricardo Mário Gonçalves

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